domingo, 22 de novembro de 2009

(Recuperando 4): A Lógica Cristã


Texto que escrevi no antigo blog "Observações Niilistas", em 06/03/2008:

Certa vez, não se sabe aonde e nem porquê, havia um deus. Este deus era eterno (imagine isso em termos de tempo...). Cansado de sentir-se sozinho, esse deus resolveu criar o universo e, lá num cantinho obscuro do mesmo, criou um planeta e o habitou com vários animais. Mas uma espécie desses animais seria a sua preferida: o ser humano, pois este representava a sua imagem e semelhança. Não sabemos quem é esse deus, mas partindo do pressuposto que o mesmo criou o ser humano a sua imagem e semelhança, é de se imaginar que, baseadas nas características humanas, chegaremos até às caracteristicas de deus, então vamos lá: Raiva, ódio, inveja, amor, presunção, arrogância, ciúme, medo, e, finalmente, a mais importante, curiosidade.

Pois foi baseada nessas características que esse mesmo deus puniu o casal primeiro de sua criação, pois eles, movidos principalmente pela curiosidade, comeram o fruto proibido, e não contente com isso, puniu todo e qualquer ser humano pelo erro dos seus ancestrais.
Deus apresentou-se desde então como um símbolo de amor, desde que não fosse contrariado... Deus é muito rancoroso... O quê? Você não concorda? Então leia a bíblia, ela não me deixa mentir... Ah, falando nisso, deus deixou para os seus súditos um livro chamado bíblia. Nele estão todas as regras de como um bom filho de deus deve se comportar, entre elas estão os meios de se fazer holocausto, como passar a espada em quem não crer nele, como tratar o seu escravo, como submeter a mulher a um papel secundário, como matar crianças indefesas, como vender sua filha como escrava... Tem muita gente que acha que a bíblia caiu do céu, já encadernada e com notas de rodapé, diretamente na cabeça do pastor, mas isso é outra história...

A saga desse deus e do seu povo segue, entre carnificinas, promessas de terra prometida, instituição de dízimos, oferendas, mais mortes, dilúvios, estátuas de sal, mais carnificina...
Até que chegou a um ponto que esse deus, aquele mesmo que havia previsto no início que tudo o que ele criara era bom, mudou de idéia... Ele então achou que o seu povo estava de alguma maneira perdido e resolveu mandar o seu filho, que nasceria de uma virgem, para redimir os pecados dos homens. A coisa funcionaria mais ou menos assim: seu filho viria para salvar a humanidade, mas para isso, a mesma humanidade que deveria ser salva teria de matar o seu filho (e dê-lhe sangue...) para se redimir dos pecados, mas mesmo assim não haveria garantia de salvação, pois esta seria de ordem pessoal, independendo do sofrimento que o seu filho teve na terra... Eu sei que é difícil de entender, mas é assim mesmo... Esse filho, chamado Jesus, antes de ascender aos céus, disse aos presentes que ele não tardaria a voltar para instituir o reino de seu pai, e que muitos que ali estavam não morreriam antes de testemunhar a sua volta... Acho que ele esqueceu da promessa...

Para não deixar os seus filhos esquecerem de sua existência e de suas promessas, o deus em questão deixou uma semente, que como uma erva daninha se espalharia pelo mundo, devastando culturas, matando pensamentos adversos, sufocando a liberdade e se impondo como dono da verdade e julgando-se paladino dos mistérios insondáveis do universo: o cristão.
Essa "semente de deus" passou os últimos séculos massacrando a liberdade do pensamento humano, preparando o terreno para a volta do seu messias, o tal Jesus, e torcendo para vê-lo descer de uma nuvem, regado de glórias e de ouro (sim, o ouro faz parte flagrante do universo cristão, vide a bíblia) e mandando para o inferno aqueles que nele não creram, como prova do sublime amor de deus pelos homens. Para que esse terreno fosse fértil, o cristão adubou-o, para não fugir à regra bíblica, com muito sangue e destruição. Foram feitas cruzadas, colonizações, inquisições, apoios a governos não muito bem vistos pela história... mas isso não convém comentar, pois eles não gostam de lembrar. Com o tempo, e com a demora da volta triunfal messiânica, o mundo foi se civilizando e adquirindo bases sociais e com elas nasceram leis e garantias ao ser humano que acabaram freando, em boa parte do mundo, os métodos de conversão usados pelos cristãos.

Estas novas leis e garantias proibiram, vejam só, que se queimassem em praças públicas certos indivíduos que, por razões totalmente incompreensíveis para esses cristãos, não queriam aceitar o amor extremo e cheio de compaixão desse deus.
Fazer o quê então? mas eles não se abalaram... Alguns, usando ainda de influência financeira e política, adentraram sorrateiramente na vida social de suas comunidades e tentaram por todos os meios frear o desenvolvimento social que parecia incontrolável dentro do novo conceito de civilização que estava surgindo. Até hoje esse método é usado para barrar pesquisas científicas, para ir de encontro ao controle de natalidade e tantos outros assuntos de interesse social. Outros aprenderam, com muita propriedade, a seguir os ensinamentos de riqueza dados pela bíblia e com eles acabaram, como Salomão, outro grande herói desse livro, absorvendo para si a ignorância alheia e transformando-a em riqueza, conforto e poder.

Ah, esqueci de mencionar uma figura central para essa filosofia religiosa da qual me prontifico em escrever, uma figura talvez tão ou mais importante do que a do deus criador e de seu filho sacrificado: o diabo. Sem ele nada disso teria tomado a grandiosidade que conhecemos. O diabo, ou qualquer outro dos milhares de nome que esse ser possui, foi um anjo que aparentemente era tão humano quanto nós, pois possuia as características básicas de que o ser humano precisou para fazer com que o mundo não ficasse estagnado em sua pré-história e evoluísse científica, social e culturalmente: a rebeldia. Como deus não gosta de insubordinação, baniu esse anjo do paraíso onde mora, pois lá os anjos têm de ser obedientes e reverenciá-lo sem nenhum tipo de questionamento. Onde esse anjo foi após o seu banimento? Essa eu respondo: ele foi morar no inconsciente dos cristãos aqui na terra. Foi um mal necessário, pois com ele muita gente fugiu à responsabilidade de assumir os seus erros e, como o diabo tem as costas largas, recebeu as culpas pelas fragilidades humanas. Tudo foi considerado culpa do diabo, até doenças. Já aquela parcela de cristão, fãs de Salomão que eu citei agora a pouco, também soube aproveitar a figura hedionda desse ser impar na história do cristianismo para assustar os seus seguidores e com isso adquirir mais conforto, poder e regalias financeiras.

Aqui então fica um conselho: nunca questione um cristão, pois ele não aceita o pensamento contrário à sua verdade apocaliptica.

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