Você já ouviu falar de Confúncio? Provavelmente sim e talvez até você seja uma pessoa muito bem informada e saiba que Confúncio, ou K’ung-Fu-Tzu, como é conhecido na China, foi o responsável pela doutrina chamada confuncionismo, que perdurou e teve força por séculos, até a queda do imperador desse país. Confúncio, para o confuncionismo, teve a mesma relevância que Jesus para o cristianismo, Maomé para o islamismo e Buda para o Budismo, entre outros lideres religiosos que, através de suas pregações, palavras e pensamentos, teriam instituído as pedras fundamentais de novas religiões. Alguns nem existiram na verdade, mas isto não vem ao caso aqui, neste momento e no assunto que quero tratar.
Mas se você perguntar a um cristão comum, digamos brasileiro, para usar como exemplo, se ele conhece Confúncio, creio que a grande maioria terá uma idéia muitíssimo vaga, quase tênue, sobre esta figura de tamanha importância para a história da religião do oriente. A coisa vai piorar ainda mais para o seu lado se você disser para este cristão que Confúncio é o verdadeiro caminho da salvação, e não Jesus como ele acredita. Você correrá o risco de comprar uma imensa briga do qual poderá se arrepender. É o religiocentrismo prevalecendo... O meu deus sempre será melhor que os eu.
Agora vamos criar um personagem hipotético: Mohamed alguma-coisa. O nosso personagen nasceu no Afeganistão e muito jovem perdeu a vida na invasão dos EUA àquele país em 2001. Morreu sem fazer a peregrinação a Meca que tanto desejava. Mohamed foi treinado para ser um terrorista, para lutar e dar a sua vida pela causa islãmica e pela destruição dos infiéis, apesar de não ter tido tempo e nem oportunidade de sair de seu país e cumprir sua obrigação religiosa. Desde muito cedo foi recrutado para um treinamento rígido, onde aprendeu a lidar com explosivos, armas, métodos de tortura e inclusive como aguentá-las se fosse pego e torturado. Sua formação religiosa foi austera e através dela formatou sua personalidade, sob as promessas de Maomé e com observância extrema dos preceitos do Corão. Se você lhe perguntasse sobre Jesus Cristo ele teria a mesma idéia vaga e tênue a respeito do ícone maior do cristianismo como teria um cristão sobre Confúncio, como no exemplo que eu descrevi no primeiro parágrafo. Pois no meio e no lugar onde Mohamed foi criado não havia lugar para a bíblia cristã e nem para a pregação dos evangelhos. Mohamed não teve a oportunidade de conhecer os ensinamentos do cristianismo e nem de aceitar Jesus como seu único mestre e salvador, pois a cultura de seu país não propiciava este luxo. Mohamed morreu sem a oportunidade de salvação tão apregoada pelos adeptos de Cristo.
Imaginemos outro personagem: Baquara. Índio guarani que viveu no século X da era cristã no Brasil, próximo ao que conhecemos hoje como região do pantanal, no Mato Grosso. Recebeu este nome pois seu pai era muito inteligente e, pela lógica da tribo, ele teria a mesma vocação para aprender e ensinar os costumes de seu povo. Baquara viveu mais do que Mohamed, chegando inclusive a ficar velho e muito respeitado como conselheiro da tribo. Aprendeu a arte da pesca, da caça e foi um especialista em ervas medicinais, enfim, teve uma vida normal para um índio brasileiro daquela época, onde viveu em paz com seu povo, sem a presença européia que, séculos depois, praticamente dizimaria com sua cultura. E por ter nascido e vivido naquela época e naquele lugar, nunca teve contato com outros povos, exceto com indígenas. Nunca viu um “homem branco” e jamais suspeitou que eles existissem. Se você pudesse entrar em contato com ele de alguma forma e conseguisse se comunicar e perguntasse a respeito de Jesus ele não teria a mínima idéia do que você estava falando, pois ele não teve também a chance de conhecer as regras e imposições cristãs para a salvação. Baquara morreu tranquilo em sua oca, por força da idade sem ter conseguido a salvação cristã, pois a propria bíblia afirma que somente aquele que aceitar Jesus como seu senhor alcançará o reino dos céus.
O que essas estórias têm em comum? Bem, em primeiro lugar o fato de terem sido imaginadas para ilustrar o que escrevo no momento, mas sabemos que, com certeza, muitos fatos como esse aconteceram e acontecem, seja no passado ou no presente. Outro ponto seria, e é sobre isso que quero escrever, o determinismo, doutrina que apregoa ser o ser humano condicionado por inúmeros fatores que determinam, de maneira relevante, os passos a serem dados, as escolhas a serem feitas e as conclusões a serem tomadas.
Nossa vida tem a influência do meio e do tempo em que vivemos (o positivismo de Conte já demonstrava isso) e nossa família, ambiente religioso e a sociedade são de extrema importância para que moldemos nossa filosofia de vida, nosso “modus vivendi”. Será que se Pelé tivesse nascido na China ele seria conhecido como o rei do futebol? Será que se Edir Macedo tivesse nascido no Tibet ele seria o fundador de uma das igrejas fundamentalistas cristãs que mais cresce em número de adeptos (e em arrecadação $$$) como é a IURD? Estes são apenas alguns dos exemplos que podemos usar.
O determinismo vai de encontro ao argumento cristão de que todo o ser humano possui um livre arbítrio como um elefante atropelando um cervo. Spinoza afirmava que "as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições". Mas será que, além da velha discussão cristã do ter-se ou não livre arbítrio, religiosamente falando, somos realmente livres para tomarmos decisões do dia-a-dia, por mais simples que elas sejam? Somos realmente livres para escolher o caminho x, em detrimento do caminho y? Ou somos condicionados por fatores externos que, pesados internamente por nossa capacidade de raciocínio, nos conduzem a uma decisão final?
Você que, ao acaso, está lendo isto que escrevi: acredita que realmente é livre pra fazer aquilo que quiser ou só poderá fazer aquilo que lhe é permitido?Pense nisso.
Tenho um amigo cristão fundamentalista. Ele afirmou certa vez que todo o ser humano, após o advento de Cristo e partir daí, nem que seja uma vez durante a vida, teve ou terá a chance de conhecer a palavra da salvação bíblica e, com isso, poderá usar do seu livre arbítrio para decidir se deseja a salvação ou não. Visto desse modo até parece simples, mas não foram pesados incontáveis fatores que estraçalham esta teoria boba logo de início quando se analisam os fatos como um todo e não da maneira simplista como através da ótica dessse amigo do qual escrevo. Os dois exemplos que dei, por mais bobos que pareçam já demonstram o que eu afirmo. Será que os Mohameds e Baquaras que se somam em quase dois milênios de cristianismo instituído, visto sobre a ótica cristã, estão condenados à danação porque deus, que tudo sabe e tudo vê, não foi bom o suficiente para proporcioná-los a chance de serem salvos e feito com que tivessem nascido no lugar certo e no tempo certo e não o contrário?
Vejo e escuto muita teoria incoerente em termos de religião. Criam-se respostas tiradas sabe-se lá de onde, não para responder propriamente dito e sim para “tapar” as imensas lacunas deixadas pelos criadores e adoradores de deuses. Teorias criadas por homens e para homens e levadas como se realmente tivessem fonte divina. Mas o estranho não é o fato de que homens inventem teorias absurdas e sim o fato, mais inexplicável ainda, de que estas teorias encontram inúmeros seguidores que, sem ao menos tentar entender aquilo em que acreditam, saem repetindo sandices como a um mantra interminável de incoerência travestida de verdade absoluta.
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