quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caim



Mal tenho tempo para respirar. Tenho uma jornada de trabalho que me filtra o tempo para hábitos que sempre me foram primordiais, como o salutar vício da boa leitura. E ainda inventaram uma tal de internet que consegue praticamente extinguir o pouco de tempo que me resta para descansar...

Mas, entre uma falta de tempo e outra, e aproveitando a Feira do Livro aqui de Porto Alegre, comprei o novo romance do José Saramago, Caim, e entendi, frente ao preço, o porquê temos um país de tão poucos leitores.

Eu, escrever sobre o autor de “Ensaio Sobre a Cegueira”, “A Caverna” e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, entre outras maravilhosas obras, é, por assim dizer, muito suspeito, pois quem me conhece sabe que sou fã do Nobel de Literatura de 1988. Saramago é um uma daquelas pessoas que possuem algo ímpar, único e exclusivo. Apesar de sua já avançada idade, continua com uma lucidez impressionante. Não é a toa que alvoroça, de tempos em tempos, os conservadores religiosos de todo o mundo. Lembro que, há algum tempo, alguém afirmou que ele já estaria senil e gagá. Claro, quem acredita nas besteiras bíblicas é que está em sua perfeita sanidade...

Saramago costuma escrever duas histórias por livro: aquela que está nas linhas e outra que tem de ser lida nas entrelinhas. Não é qualquer um que consegue encontrar esta, são poucos que entendem aquela. O estilo rebuscado, cheio de vírgulas e com pouquíssimos pontos é a caraterística literária que marca a obra do autor. Caim não foge a esta regra.

Como o título da obra já nos anuncia, Caim fala de... Caim, personagem bíblico visto através dos séculos como um vilão e que, nas mãos e na mente de Saramago transforma-se no herói do livro. Um herói errante que viaja por entre as lendas do Antigo Testamento e vai atestando, com muita tristeza e amargor, a personalidade cruel, invejosa e vingativa do deus criado pelos judeus e que ainda hoje é adorado por milhões de pessoas no mundo todo. Um deus ora sanguinário, ora confuso, ora indiferente, quase sem saber ao certo do seu papel como deidade maior das estórias judaico-cristãs. Enfim, um deus que não difere muito de outros deuses, quase esquecidos, cultuados por nossos antepassados mais longíncuos. Deuses que exigiam sacrifícios e destruiam seus inimigos. A única diferença aqui, entre esses deuses, abandonados pela história e Javé, é que os primeiros destruiam os seus inimigos, enquanto o outro, o da bíblia, destruia seu inimigos e também aos seus seguidores.

Saramago compõe em Caim um mosáico das mostruosidades do deus bíblico e analisa, com os olhos da sanidade, a loucura patética de quem ainda ousa defender este deus como se o mesmo fosse sinônimo do amor, da bondade e da fraternidade.

O livro, que repete a fórmula da releitura dos textos bíblicos, como em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, é um bom livro, mas não chega, na minha opinião, ao ardor visceral deste primeiro. No meu modo de ver as coisas, faltou ao autor a ousadia para implementar e prosseguir adiante, pois se a idéia de Saramago era a de mostrar a crueldade sanguinária do deus da bíbla, assunto não lhe faltaria em um livro que, como já foi dito antes, deveria ser lido com luvas para não sujarmos as mãos de sangue, sendo este sangue muitas vezes inocente.

O “gajo” pareceu-me um pouco cansado e sem muita vontade de aprofundar-se na saga de Caim versus as crueldades do deus de Abraão, Moisés e Noé.
Mas o livro, apesar de tudo, cumpriu o seu papel: mexeu no carrancudo mundo cristão como quem cutuca um vespeiro com uma vara. Pesquisando na internet vejo uma quantidade enorme de religiosos recriminando o autor por “ousar” apontar os defeitos de Jeová, sua crueldade e descaso para com seus seguidores, mas não notam estes recriminadores que não se faz necessário ler o livro de José Saramago, para que vejamos a carnificina deste deus idolatrado por judeus e cristãos, basta apenas que passemos a ler a bíblia, pois foi de lá que o autor de Caim buscou sua inspiração. Leiam e tirem suas conclusões.

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