
Texto que escrevi no blog "Observações Niilistas" em 16/04/2008:
Era sábado, e como costumam ser os sábados de outono, fazia um certo friozinho acalentador.
O hospital aos poucos ia tomando ares de local público movimentado, apesar de ainda ser muito cedo. Mariazinha olhava o seu filho que acabara de mamar. Tão pequeno por conta de um período de gravidez com dificuldades. Seu marido desempregado, as contas, a falta de alimentos.
Ela agradecia a Deus por tudo ter dado certo. A criança nascera um pouco fora do peso, mas agora, depois de um período de internação hospitalar já estava com jeito de criança, e não, como disse sua sogra no dia em que deu-se a concepção, "uma minhoca rosada"... coisas de sogra... Mariazinha, pela felicidade de ser mãe pela primeira vez, nem fazia conta da maldade daquelas palavras.
Ela arrumava as suas coisas, pois dentro de uma hora ou menos viriam lhe buscar. Iria para casa com o seu filho tão amado que por 9 meses carregara em seu ventre. A felicidade parecia que não tinha limites quando ela ouve um estrondo, um barulho seco e indefinido que vinha da grande janela que se agigantava à sua esquerda. De repente uma luz, um vulto...
- Olá, sou Nataliel, anjo que vem da parte de Deus onipotente...
Como conter o susto? O que dizer numa hora daquelas? Um anjo do Senhor que vinha visitar o seu filho! Isso é maravilhoso -ela pensou- o que viria um anjo fazer aqui, neste fim de mundo, nessa cidade esquecida por Deu.. -ops, quase cometi um pecado- ela corrigio o seu pensamento maldito.
- Você, pelo que consta em meus apontamentos é a Mariazinha, estou certo? -inquiriu o anjo.
- Sim, sou eu mesmo! -responde Mariazinha, com os olhos radiantes, imaginando que talvez a tão falada volta do Messias estaria se cumprindo naquele momento. Ela, a mãe do salvador cheio de glórias... Seria isso mesmo?
-Bem, vamos ser rápidos que tenho muitas visitas ainda hoje -diz a figura alada e de uma brancura alva quase transparente.
- Oh meu Deus, estou tão emocionada, o que o traz aqui meu anjo? É alguma profecia que se cumpre?
- Err.. Não minha filha, tenho de fazer esse procedimento para com todas as mães quando do nascimento de seus filhos, inclusive aqui, no outro quarto eu estive com uma mulher que custuma dar trabalho... Ela já está no oitavo filho. Todo o ano eu acabo "esbarrando" com ela..
- Mas do que se trata? Minha mãe nunca falou disso, de visita de anjos, e olha que ela teve 14 filhos.
- Eu lembro, eu lembro... A coisa funciona assim: eu venho lhe trazer uns papéis, meras formalidades, para que você assine e, quando eu partir, você esquecerá que eu estive aqui, foi por isso que sua mãe não lhe contou nada, ela não lembra... E veja se você manera na quantidade de filhos.. bem, esqueça essa parte, vamos ao que interessa...
-Papéis?
- Sim, o primeiro é esse aqui, que você assina atestando que está ciente de que o seu filho já nasce com o sinal do pecado e que ele terá de lutar nessa vida que se inicia para vencer essa marca e tentar salvação junto ao Glorioso-Onipotente-Onisciente-Onipresente-Deus-dos-Exércitos-e-de-Israel, amém!
- O quê, não entendo... pecado, mas...
- [suspiro] Minha filha, vamos abreviar isso que eu tenho mais o que fazer... você tem idéia de quantas crianças nascem no mundo? De quantas visitas eu tenho feito ao longo dos séculos por esse mundão de meu Deus? Então colabore e assine de uma vez... -ele estende o papel amarelado e a caneta de pena - talvez pena de anjo, ela pensa...
- Mas, mas... Eu não vou assinar isso, como eu vou atestar que meu filho possui pecado se o coitadinho recém nasceu, isso não me parece muito lógico...
- [suspiro] Ai minhas sandálias... [suspiro] Isto é somente formalidade, não fará diferença se você assinar ou não, a marca do pecado já está nele, veja se entende, ok! Mas, se você não assinar, lá adiante, quando o Filho do Homem voltar para julgar os justos e os pecadores, Ele procurará na pasta do seu filho e se não tiver a sua assinatura... créu!
-Créu???
-Aff... É por isso que eu não gosto de descer aqui... Essas musiquinhas grudentas que ficam retumbando na nossa cabeça... Esqueça o "créu", está bem? Somente assine. Sua mãe assinou os dos seus 14 filhos, a vida sempre foi assim, não complique o meu trabalho e não fale de injustiça. Por acaso você está questionando os métodos do Todo-Glorioso-Supremo-detentor-da-vida-e-do-bem, amém?
-Não, não estou questionando, mas achei estranho. Não parece fazer muito sentido, mas de maneira nenhuma eu questionaria o Todo-isso-que você-falou.. Eu assino então...
Mariazinha assina, tentando tirar de seu pensamento a sensação de que ali havia uma injustiça tamanha. Isso é pecado, Maria, não pense assim -ela repetia em seus devaneios- vai que o anjo lê pensamentos...
- Eu leio pensamentos sim... é melhor você parar mesmo...
"vou pensar em bolo de chocolate, bolo de chocolate, sai pensamento ruim, sai..."
Após assinar, Mariazinha recebe outro papel, do qual o anjo lhe explica a finalidade:
- Esse aqui é um comprometimento pessoal seu de que, na educação de seu filho, você sempre usará a fé e a palavra divina para explicar o caminho para que ele saiba por onde seguir, sem risco de desviar-se. E o mais importante: você inibirá em seu filho toda e qualquer tentativa de raciocinar e de usar a razão para questionar o mistério da salvação. O cérebro e a razão são os maiores inimigos do plano celestial.
Sem muito entender aquilo que o anjo lhe havia explicado, Mariazinha assina, ainda sentindo um certo desconforto. "bolo de chocolate, bolo de chocolate..."
Após todo aquele ritual angelical, o anjo, de posse dos papeis que trouxera expecialmente para que Mariazinha assinasse, voa pela janela, segue-se um clarão e o esquecimento...
Mariazinha descobre-se pensando no nada, como se tivesse perdido alguma coisa sem saber exatamente o quê.
Ela olha para o seu filho, pensa tentando lembrar no que exatamente estava pensando a um minuto atrás, mas não lembra. O menino resmunga, como querendo acordar. Ela o pega no colo com o extremo amor e carinho que só é possível vindo de uma mãe e sente vontade de chorar.
- Meu filho, que estranho caminho te espera? -ela pensa.
Minutos antes do seu marido e de sua mãe chegarem para levá-la para casa ela, estranhamente, sente uma profunda vontade de comer um bolo de chocolate.
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