domingo, 11 de outubro de 2009

Grupos



Em meados dos anos 80, lá por 1986 se não me engano, eu vivia a efervecência do idealismo juvenil. Bons tempos. Havíamos recém saído do famigerado regime militar (sei, sei.. “saído” não é o melhor termo a ser usado, mas vamos continuar nesta linha de pensamento...) e víamos a chance, não muito clara ainda, de que finalmente poderiamos votar pra presidente num futuro próximo e isto, na cabeça de um jovem de dezesseis anos, naquela época, era a chance real de ver o sonho de mudança que todo jovem possui (ou possuia, já não sei mais...) tornar-se realidade.

Ícones da resistência já podiam andar livremente e, o que é melhor, manifestarem-se publicamente. Leonel Brizola, Lula, Miguel Arraes, Prestes, Gabeira... Era a abertura iniciada no começo da década tornando uma forma mais clara aos nossos olhos e eu, que já sou metido por natureza, queria participar a todo o custo.

Naquele ano eu frequentava as reuniões da UJS, que engatinhava ainda, e quase me filiei a um partido de esquerda. Não tenho vergonha de assumir que durante a juventude eu tinha um pensamento socialista ferrenho. Lia Marx, sem entender muito bem e pensava que Lenin deveria ser cultuado como um semi-deus... Coisas de jovem daquela época, reprimido politica e socialmente pelo pensamento de extrema direita vigente no país. Hoje eu já não mais compactuo com uma idéia socialista plena, as pessoas mudam e entendem, aos poucos, como as coisas realmente funcionam (e eu tô chegando aos 40, né gente...). Mas tenho saudades daquele tempo em que pensavamos com muita ideologia mas com pouca lógica... faz parte do aprendizado...

Como eu mencionei acima, quase me filiei a um partido de esquerda. Quando eu estava já com um pé na porta da instituição veio a nóticia de que o partido em que eu iria me filiar decidira apoiar o Sr. Pedro Simon na disputa pelo Governo do Rio Grande do Sul... Achei aquilo um absurdo, pois o partido do Simon, de grandes histórias políticas no tempo da resistência, estava se transformando em um ninho de extremistas de direita, sem contar que era o partido do então Presidente da República, José Sarney... Desisti. Foi nessa época, aos 16 anos, que entendi o funcionamento dos grupos organizados: não existe um pensamento livre e sim uma obrigação de se acatar decisões, mesmo que você não concorde com elas...

Já nos anos 90, trabalhando diretamente dentro de diretórios e comitês partidários (pelo dinheiro e não por ideologia) fui definitivamente corroborando a idéia de que grupos organizados não combinavam com a minha sempre independente forma de pensar e de me manifestar. Então, definitivamente, decidi que sempre teria o meu pensamento próprio, longe de obrigações e de fidelidade e de grupos organizacionais.

Hoje vemos o que a política partidária faz com as pessoas. O Lula em que eu votei em 1989 não é o mesmo Lula de 2009, só pra ficar em um exemplo conhecido.

Por isso vejo com um pouco de receio a criação de grupos e de associações de ateus. Com qual finalidade elas estão sendo criadas? Será que amanhã estes grupos não serão vistos como entidades religiosas sem divindades? Confesso que vejo tudo isso com os olhos da desconfiança, não da integridade de seus membros e sim do papel que estas organizações irão tomar na pretensa representatividade dos ateus.

Torço, honestamente, para que estes grupos façam um bom trabalho em prol da desmitificação do “ser ateu” e que consigam algum objetivo prático em favor do laicismo e da separação definitiva do Estado com a mistificação e a religião. Mas prefiro ficar olhando de fora, apoiando quando se fizer algo realmente útil e digno de louvor, ou criticando quando se estiver indo por caminhos completamente desnecessários, inúteis e/ou errôneos. Pois se eu estiver “dentro”, não terei como assumir quando houver o erro e serei suspeito quando aplaudir a um grande gesto ou decisão em algum objetivo concreto alcançado.

Vamos aguardar o andar da carroagem...

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